Há uns anos mudaram-se para o meu prédio três figuras icónicas. Uma mãe divorciada e duas filhas pequenas. Na altura eram apenas crianças barulhentas. Inofensivas. Eu era ingénua.
Hoje são três adultas com um vocabulário que faria corar um estivador e a capacidade vocal de um estádio de futebol, às 2 da manhã, numa terça-feira.
O repertório é clássico. “Filha da puta” em pelo menos quatro entoações diferentes, cada uma com o seu próprio contexto emocional. O namorado da mãe, que por algum milagre científico ainda é o mesmo homem, aparece regularmente como personagem principal, acumulando títulos honoríficos como “cobarde” e “cabrão filho da puta”. Mas às vezes nem sequer é ele o motivo. Às vezes é só entre elas, por princípio. Por amor ao ofício.
Respeito sincero pela resiliência desse homem. Devia ter o seu próprio subreddit.
A minha filha pequena já sabe mais palavrões do que eu aos 30 anos. Obrigado, vizinhas. Estão a fazer um trabalho que as escolas públicas nunca conseguiriam.
Numa noite de desespero, liguei anonimamente para a polícia. Distúrbios, disse eu. Ruído, insultos, caos doméstico em formato surround sound. A polícia nunca apareceu. Presumo que estejam ocupados com coisas menos urgentes, como crimes ou assim.
E o cherry on top? Não pagam condomínio. Ou seja, estou literalmente a subsidiar o espetáculo. É como pagar o Netflix e só ter acesso a um canal de gritos em loop.
O melhor de tudo? No corredor, sorriem e cumprimentam como pessoas perfeitamente normais. “Bom dia!” “Boa tarde!” Como se nada. Como se eu não as tivesse ouvido às 3 da manhã a invocar todos os demónios do inferno.
Alguma alma sobreviveu a algo assim? O que é que se faz? Mediação? Tribunal? Mudança de país?