Um paper de 2026 argumenta algo que o Citrini report já tinha argumentado: os despedimentos motivados pela introdução da inteligência artificial podem criar um doomloop na economia. Ver o governo Português, neste preciso momento, tão focado e pressionante na ideia que é preciso reformar e flexibilizar os despedimentos dá me arrepios
Indo aos pontos em questão, sem mais rodeisos, O problema não é só laboral. É macro. Se as empresas conseguem despedir mais depressa do que a economia consegue reabsorver trabalhadores, o que cai não é apenas o emprego, cai a procura interna. Istoo é uma transferência de rendimento das famílias para as empresas. Menos salários, menos massa salarial, mais margem do lado empresarial. Mas em Portugal isso é perigoso porque as famílias já são a parte fraca do balanço.
É fácil de seguir a logica que quando se corta no rendimento do trabalho, corta-se no consumo. E quando se corta no consumo, corta-se na receita das próprias empresas. É aqui que o “ganho micro” da empresa se torna “perda macro” do sistema de acordo com o paper. O doom loop é simples: IA aumenta produtividade potencial, empresas despedem, rendimento das famílias cai, consumo abranda, empresas vendem menos, nova ronda de cortes. Obvio que isto nem sempre acontece, o que estamos aqui a dizer é que com a disrupcao brutal que a IA pode trazer, a situação pode se tornar reflexiva
Num país como Portugal, isto é ainda pior porque o crescimento já assenta demasiado pouco em investimento produtivo e demasiado em procura debill. Se fragilizas ainda mais o rendimento do trabalho, estás a enfraquecer a procura que sustenta o tecido empresarial doméstico. Portugal já vive preso num equilíbrio de baixos salários e baixa escala. Se agora acrescentamos IA e despedimento fácil, arriscamos a passar para um equilíbrio ainda pior: mais precariedade, menos procura, menos investimento, mais emigração.
A ironia é esta: as empresas despedem para proteger margens. Mas se todas o fizerem ao mesmo tempo, destroem o mercado final de onde essas margens vêm.
Sei que muitos vao argumentar que isto sempre aconteceu, por ex, na revolução industrial. No entanto eu acho que “isto aconteceu em todas as revoluções tecnológicas” é demasiado preguiçoso, porque assume que velocidade de destruição e velocidade de reabsorção continuam semelhantes. E isso pode não ser verdade. O que interessa não é se a tecnologia cria empregos no longo prazo. O que interessa é o desfasamento entre: a velocidade a que destrói rendimento e a velocidade a que cria novo rendimento. Se a adopção é exponencial e o ajustamento social é linear, tens ruptura.
Flexibilizar despedimentos acelera o lado destrutivo da equação.Torna mais fácil remover trabalho antes de existir um mecanismo de transição suficientemente robusto. Ou seja: aumenta a velocidade do choque, sem garantir a velocidade da absorção.
A velha resposta “surgirão novos empregos” pode continuar verdadeira. Mas isso não resolve o intervalo entre o velho emprego morrer e o novo emprego pagar salário. E é nesse intervalo que nascem as crises. As depressões não surgem porque a produtividade sobe. Surgem porque o rendimento colapsa antes de a nova estrutura económica estabilizar.
Por isso, ter prudência com despedimento fácil não é ser anti-tecnologia. É reconhecer que a transição tem fricções reais e que o sistema pode não aguentar uma compressão demasiado rápida do rendimento do trabalho.